LENDO E ENGENHANDO

Salvador, Bahia, Brazil
Este blog tem como objetivo principal promover a leitura como forma de construir ideias e ampliar os horizontes, divulgando a produção textual dos alunos do 1º semestre do curso noturno de Engenharia Civil, turma A, de 2013.1 da UNIJORGE.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Tempo Perdido

Seu coração parecia vazio diante de tanta tristeza, procurava-a em todos os lugares desesperadamente, chegou a pensar em se matar, no entanto sabia que não seria a melhor solução. De tal forma que Marcelo passou a não acreditar no amor, nas pessoas e em basicamente nada. Com o passar do tempo se viu loucamente dependente, nada mais fazia sentido se não fosse ao seu lado.
Hoje, ao final de tarde desta sexta-feira se vê acidentalmente, ouvindo-a no rádio a caminho da faculdade.  Ah! Como tinha evitado este momento, ora não tinha mais jeito teria que enfrentá-la, seu pai permaneceu ao fundo de cabeça baixa. Por muitos anos evitou-a de todas as formas, não poderia deixar que lhe atrapalhasse logo agora que estava tudo correndo tão bem! Cursando Engenharia Civil o qual seu pai tanto deslumbrava. Ao seu lado a querida Amanda, linda e certinha era assim que sua mãe costuma dizer “mulher é como cachorro, meu filho, se conhece pelo pedigree, se a mãe não tem! A filha pouco pior”. Porém não acreditava muito nessa ideia interiorana, tinha suas controversas, contudo não poderia mais decepcioná-la.
De certo tinha consciência das consequências causadas por ela, do mesmo modo, eram inegáveis os encantos e ainda a vontade de tê-la em suas mãos. Além do mais sua pureza era desejável por muitos de seus amigos. Lembrou-se do tempo que tomava atitudes impensadas a todo o momento por aquela branquinha, as opiniões a respeito dessa relação de dependência, eram irrelevantes. Os momentos pareciam ser eternos, a sensação de liberdade transviada o deixava à vontade para enfrentar a tudo e a todos.  Nossa! Como desejava. Fascinava-se em poder, gritar, sorrir, ignorar aquelas pessoas chatas e caretas que tanto os limitavam a todo o momento.
Alta velocidade no Escort vermelho pelas ruas de Salvador, sempre em sua companhia, e claro dos seus dois grandes amigos, Demétrius e Rodolfo e que por sinal há muito tempo não os viam, embora circulando pelos corredores da Faculdade Jorge Amado ouvisse alguém comentar sobre Demétrius que teria ido para o Rio de Janeiro em sua busca, e a procura por novas aventuras. Iludido coitado acabou vendendo o pouco que tinha e partiu feito um pássaro. Efetivamente era o mais seduzido, nunca acreditou em viver sem ela. Já Rodolfo era o mais acomodado, desempregado até hoje, continuava a tocar aquela velha música pelas ruas do Rio Vermelho acompanhado do violão desafinado. O passado e o presente o confundiam, a sua falta o deixava deprimido e ainda refletia em suas atitudes e comportamento, confuso não saberia dizer o momento certo em que seu dinheiro teria acabado tão pouco seus sonhos, restando apenas àquela música maldita que tanto, ambos, ouviam e os prendeu a ela.


Só quando a amizade foi afetada por mentiras, ciúmes e brigas, é que se separaram. A confirmação daquilo tudo só veio dias depois quando Marcelo se viu compulsivamente pensando nela, embora tentasse negar acabou ligando para um amigo que o informou onde encontrá-la, naturalmente sabia que tinha mudado de região, apesar de perigoso não pensou duas vezes, assim pegou seu violão e partiu desesperadamente ao seu encontro. Durante o trajeto a rádio local transmitia a música em que tanto o transportava para o início de tudo aquilo, foi quando inevitavelmente em alta velocidade colidiu com um carro estacionado na calcada, despertando em uma cama de hospital do subúrbio ferroviário com múltiplas fraturas, e para sua surpresa aquele senhor ríspido e chato ao seu lado.
Era o velho pai que tanto o incomodava, cabelos brancos, magro e aparência cansada, ali parada feito uma pedra evitou encará-lo, logo o silencio invadiu o quarto, o som de um soluço fez com que simultaneamente direcionasse os olhares um ao outro. Sem dúvida algo estranho tinha acontecido, mas que marcaria todo o futuro de sua vida, como um toque de mágica, uma gota de lágrima pingou em sua face, ao mesmo modo despertando para o verdadeiro sentido da vida. Decidiu naquele momento que tudo seria diferente e nunca mais ouviria aquela música ao qual o remetia a ela.  
- Marcelo... Marcelo! Olha o carro à frente. Assim... Amanda despertou de suas lembranças, ao tempo que a música continuava a tocar. O que poderia lhe acontecer! Partiria novamente em sua busca?
Entretanto em meio à melodia sentiu algo diferente, como se tivesse ouvindo a pela primeira vez, aquela música que tanto marcou sua juventude tinha um sentido e um significado diferente. A maturidade e a determinação dos seus pais tinham o curado e transformado a sua desilusão em esperança. A dependência química não era mais algo a temer, juntos na lembrança da querida mãe, puderam cantar sem medo o Tempo Perdido.

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