Seu coração parecia
vazio diante de tanta tristeza, procurava-a em todos os lugares
desesperadamente, chegou a pensar em se matar, no entanto sabia que não seria a
melhor solução. De tal forma que Marcelo passou a não acreditar no amor, nas
pessoas e em basicamente nada. Com o passar do tempo se viu loucamente dependente,
nada mais fazia sentido se não fosse ao seu lado.
Hoje, ao final de tarde
desta sexta-feira se vê acidentalmente, ouvindo-a no rádio a caminho da faculdade.
Ah! Como tinha evitado este momento, ora
não tinha mais jeito teria que enfrentá-la, seu pai permaneceu ao fundo de
cabeça baixa. Por muitos anos evitou-a de todas as formas, não poderia deixar
que lhe atrapalhasse logo agora que estava tudo correndo tão bem! Cursando Engenharia
Civil o qual seu pai tanto deslumbrava. Ao seu lado a querida Amanda, linda e
certinha era assim que sua mãe costuma dizer “mulher é como cachorro, meu filho,
se conhece pelo pedigree, se a mãe não tem! A filha pouco pior”. Porém não acreditava
muito nessa ideia interiorana, tinha suas controversas, contudo não poderia
mais decepcioná-la.
De certo tinha consciência
das consequências causadas por ela, do mesmo modo, eram inegáveis os encantos e
ainda a vontade de tê-la em suas mãos. Além do mais sua pureza era desejável
por muitos de seus amigos. Lembrou-se do tempo que tomava atitudes impensadas a
todo o momento por aquela branquinha, as opiniões a respeito dessa relação de dependência,
eram irrelevantes. Os momentos pareciam ser eternos, a sensação de liberdade
transviada o deixava à vontade para enfrentar a tudo e a todos. Nossa! Como desejava. Fascinava-se em poder,
gritar, sorrir, ignorar aquelas pessoas chatas e caretas que tanto os limitavam
a todo o momento.
Alta velocidade no Escort vermelho pelas ruas de
Salvador, sempre em sua companhia, e claro dos seus dois grandes amigos,
Demétrius e Rodolfo e que por sinal há muito tempo não os viam, embora circulando
pelos corredores da Faculdade Jorge Amado ouvisse alguém comentar sobre Demétrius
que teria ido para o Rio de Janeiro em sua busca, e a procura por novas
aventuras. Iludido coitado acabou vendendo o pouco que tinha e partiu feito um
pássaro. Efetivamente era o mais seduzido, nunca acreditou em viver sem ela. Já
Rodolfo era o mais acomodado, desempregado até hoje, continuava a tocar aquela velha
música pelas ruas do Rio Vermelho acompanhado do violão desafinado. O passado e
o presente o confundiam, a sua falta o deixava deprimido e ainda refletia em suas
atitudes e comportamento, confuso não saberia dizer o momento certo em que seu dinheiro
teria acabado tão pouco seus sonhos, restando apenas àquela música maldita que
tanto, ambos, ouviam e os prendeu a ela.
Só quando a amizade foi afetada por mentiras, ciúmes e brigas, é que se separaram.
A confirmação daquilo tudo só veio dias depois quando Marcelo se viu compulsivamente
pensando nela, embora tentasse negar acabou ligando para um amigo que o informou
onde encontrá-la, naturalmente sabia que tinha mudado de região, apesar de
perigoso não pensou duas vezes, assim pegou seu violão e partiu
desesperadamente ao seu encontro. Durante o trajeto a rádio local transmitia a
música em que tanto o transportava para o início de tudo aquilo, foi quando inevitavelmente
em alta velocidade colidiu com um carro estacionado na calcada, despertando em
uma cama de hospital do subúrbio ferroviário com múltiplas fraturas, e para sua
surpresa aquele senhor ríspido e chato ao seu lado.
Era o velho pai que tanto o incomodava, cabelos brancos,
magro e aparência cansada, ali parada feito uma pedra evitou encará-lo, logo o
silencio invadiu o quarto, o som de um soluço fez com que simultaneamente direcionasse
os olhares um ao outro. Sem dúvida algo estranho tinha acontecido, mas que
marcaria todo o futuro de sua vida, como um toque de mágica, uma gota de
lágrima pingou em sua face, ao mesmo modo despertando para o verdadeiro sentido
da vida. Decidiu naquele momento que tudo seria diferente e nunca mais ouviria
aquela música ao qual o remetia a ela.
- Marcelo... Marcelo! Olha o carro à
frente. Assim... Amanda despertou de suas lembranças, ao tempo que a música
continuava a tocar. O que poderia lhe acontecer! Partiria novamente em sua
busca?
Entretanto em meio à melodia sentiu algo diferente, como
se tivesse ouvindo a pela primeira vez, aquela música que tanto marcou sua
juventude tinha um sentido e um significado diferente. A maturidade e a
determinação dos seus pais tinham o curado e transformado a sua desilusão em esperança.
A dependência química não era mais algo a temer, juntos na lembrança da querida
mãe, puderam cantar sem medo o Tempo Perdido. 
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